O Dia da Mulher nasceu das mulheres socialistas
Quando começou a ser comemorado o Dia Internacional da Mulher? Quando começou a luta das mulheres por sua libertação?
Qual é a influência do movimento socialista na luta das mulheres? E o 8 de Março, como nasceu? A data teve origem a
partir do quê? Onde?
Estas e outras questões mereceram uma atenção especial em 2003, quando nos jornais e na Internet apareceram
repetidamente versões diferentes.
Todas, no entanto, esqueceram a palavra-chave,que está na luta da mulher por sua libertação: mulher
"socialista".
Em 2003, nas vésperas do 8 de Março, o jornal cearense O Povo publicou um longo artigo de uma professora da
Universidade Federal do Ceará (UFCE) que deixou muita gente assustada. O mesmo aconteceu com vários artigos que
circularam pela Internet.
Para encarecer a dose, logo após a comemoração do Dia Internacional da Mulher, em 2003, o novo jornal que acabara de
sair, Brasil de Fato, no seu número 1, também trazia um artigo da mesma professora da UFCE, Dolores Farias, que
reafirmava o que ela havia escrito no jornal O Povo, dias antes. Houve pessoas que ficaram furiosas com a contestação
da origem da data do Dia Internacional da Mulher. Procurando entender o porquê desta confusão.
Na verdade, a questão da origem do 8 de Março já é discutida há alguns anos. Em 1996, o Jornal do Brasil trazia um
artigo da professora da UFRJ, Naumi Vasconcelos, no qual ela dizia que a tal greve de Nova Iorque, em 1857, quando
teriam morrido 129 operárias queimadas vivas, nunca existiu. E ela afirma que a origem desta data é bem outra.
No mesmo ano, em março, o Conselho de Classe, jornal do SEPE, sindicato dos profissionais de educação da rede pública
do Rio de Janeiro, trazia um artigo da mesma professora Naumi, com o título sugestivo de: Quem tem medo do 8 de
Março? 2003
Uma pesquisa de 12 anos
Neste, a autora citava, como fonte fundamental para a discussão, um livro de uma pesquisadora canadense intitulado: O
dia Internacional da Mulher - Os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do 8 de março, até hoje confusas,
maquiadas e esquecidas.
Este livro, da autora canadense Renée Cote, saiu em 1984, mas estranhamente ficou esquecido por várias razões. O
livro da Renée é totalmente antiacadêmico, anticonvencional. Mas, mais do que a forma, o que fez o livro cair em
esquecimento é o que ela afirma, que incomoda muita gente. Ela prova por a+b, ao longo de 240 páginas, que as
certezas criadas nos anos de 1960, 70 e 80 pelos movimentos feministas, a respeito do surgimento do 8 de Março, são
pura ficção.
Ela derruba um mito caro às mulheres feministas, que tanto penaram para afirmar esta data. Além disso, o livro acabou
caindo no esquecimento porque é mais fácil aceitar versões já consolidadas de histórias caras às nossas vidas, do que
questionar mitos estabelecidos. Assim como, para muitos, é mais fácil aceitar a historinha de Adão e Eva, criados do
barro, uns seis mil anos atrás, do que questionar as origens do homem, bem mais complexas, centenas de milhares de
anos atrás.
Há um outro fator determinante que fez o livro da autora canadense cair no limbo: ela deixa transparecer, o tempo
todo, sua visão favorável à autonomia dos movimentos sociais frente aos partidos e mostra uma prevenção à própria
idéia de partido político.
O livro se insere no grande leito de luta autonomista, típica dos movimentos de esquerda dos anos 70. Isto cria uma
animosidade com muitos setores da esquerda mais influente, que poderiam divulgar sua obra. Mas, deixando de lado
simpatias, ou alegrias, vamos entrar no cipoal deste mito.
A explicação da origem do mito da greve de Nova Iorque de 1857, nos EUA, e do esquecimento de outra greve real,
concreta e proibida, de 1917 na Rússia, vamos ver só no final do artigo. A questão-chave é ver por quê, no mundo
bipolar da Guerra Fria dos anos 60 do século passado, os dois blocos em disputa aceitaram a versão de uma greve de
mulheres, em 1857, nos EUA, c esqueceram uma outra greve de mulheres, em 1917, na Rússia. Os motivos são mais
políticos que psicológicos. Vejamos.
O clima mundial quando nasceu o mito de 1857
Na década de 60 o mundo vivia uma grande convulsão político-ideológica. Somente no começo dos anos 70, o jogo se
define e o bloco ocidental americano, isto é, capitalista, leva a melhor sobre o bloco soviético, socialista. A
chegada do homem à lua, por parte dos americanos, em 69, definiu o destino da humanidade por várias décadas e, quem
sabe, séculos. A URSS, a partir dessa data, entra em rápida decadência e o bloco americano caminha rumo ao império
neoliberal mundial.
Esta década foi um vendaval nos costumes e ideologias do mundo. Mexeu com todo o equilíbrio político-cultural do
planeta. Os anos 60 começam com a vitória do povo da Argélia contra o colonizador francês que foi o estopim das
guerras de liberação no Congo, Senegal, Nigéria, Ghana c em toda a África.
A China vivia sua Revolução Cultural, com o famoso Livro Vermelho de Mão Tsé Tung, que influenciava milhões de jovens
no mundo inteiro. O Vietnã, após ter derrotado a França em 54, enfrentava e preparava a derrota do maior exército do
mundo. Os países ex-coloniais tinham criado o movimento dos Não-alinhados. O mundo árabe, sob a liderança de Nasser,
começava a se mexer.
Enquanto isso, a Revolução Cubana, com os barbudos Fidel e Che era um modelo para os revolucionários da América
Latina e do mundo.
No bloco soviético, aumentava a contestação interna com a "Primavera de Praga", em 68, na República Tcheca.
Enquanto isso, a Igreja Católica vivia as dores do parto do nascimento da Teologia da Libertação, pós-Concílio
Vaticano II, que negava o apoio a exploradores, opressores, colonizadores e senhores da guerra, com suas cruzadas, e
começava a falar em libertação dos oprimidos.
No mundo ocidental, os costumes tradicionais eram contestados pela entrada em cena do mundo jovem: Beatles,
Woodstock, Black Power, movimento hippie e Panteras Negras. Na América Latina, faziam-se guerrilhas contra ditadores
representantes do capital local e capachos do imperialismo americano.
As mulheres americanas e européias haviam descoberto a pílula e as dos países do Terceiro Mundo, a metralhadora, nas
guerrilhas lado a lado com os homens.
No Ocidente, os estudantes passaram dos livros de Marcuse a Alexandra Kollontai e Wilhelm Reich com sua Revolução
Sexual e A Função do Orgasmo. As mulheres americanas se manifestavam contra a Guerra do Vietnã e falavam em
Women's Lib: libertação das mulheres.
Os estudantes erguiam barricadas em Paris, tomavam as ruas em Praga, Berkeley e Rio de Janeiro e falavam de revolução
e de amor: revolução social e sexual. E as feministas nas suas manifestações falavam de "mística feminina"
e queimavam sutiãs nas praças públicas.
Nesse caldeirão cultural mundial, em Chicago, em 1968, e em Berkeley, em 69, se retoma, através de boletins e jornais
feministas, a idéia do dia Internacional da Mulher. Só que se esquece de que no começo do século, quando nasceu o Dia
da Mulher, se acrescentava a qualificação de socialista. Este dia... tinha caído no esquecimento, soterrado por
sucessivas avalanches históricas.
As duas guerras mundiais, a burocratização stalinista da União Soviética e o avanço do capitalismo ocidental na sua
versão clássica americana, ou na sua versão socialdemocrata européia, cada vez menos socialista, não tinham interesse
em comemorar o 8 de Março.
E nesse clima político-ideológico mundial que será retomada a idéia de se comemorar uma data internacional para a
luta de libertação das mulheres.
A origem do mito da greve de 1857
O que estamos acostumados a ler nos boletins de convocação do Dia da Mulher é a história de uma greve, que aconteceu
em Nova Iorque, em 1857, na qual 129 operárias morreram depois de os patrões terem incendiado a fábrica ocupada.
A primeira menção a essa greve aparece em um boletim publicado em Berlim, na então República Democrática Alemã, da
Federação Internacional Democrática das Mulheres. O boletim é de 1966. Antes ninguém havia falado dessa suposta
greve.
O artigo fala rapidamente, em três linhas, do incêndio que teria ocorrido em 8 de março de 1857 e depois diz que em
1910, durante a 2ª Conferência da Mulher Socialista, a dirigente do Partido Socialdemocrata Alemão, Clara Zetkin, em
lembrança à data da greve das tecelãs americanas, de 53 anos antes, teria proposto o 8 de Março como data do Dia
Internacional da Mulher.
A confusão do Boletim da Federação das Mulheres Comunistas Alemãs teve origens, provavelmente, em duas outras greves
ocorridas na mesma cidade de Nova Iorque, mas em outra época. A primeira foi uma longa greve real, de costureiras,
que durou de 22 de novembro de 1909 a 15 de fevereiro de 1910.
A segunda foi uma outra greve, uma das tantas lutas da classe operária, no começo do século XX, nos EUA. Esta
aconteceu na mesma cidade em 1911. Nessa greve foi registrada a morte, durante um incêndio, causado pela falta de
segurança nas péssimas instalações de uma fábrica têxtil, de 134 pessoas, na maioria mulheres imigrantes judias e
italianas.
Esse incêndio foi, evidentemente, descrito pelos jornais socialistas, numerosos nos EUA naqueles anos, como um crime
cometido pelos patrões, pelo capitalismo.
Essa fábrica pegando fogo, com dezenas de operárias se jogando do oitavo andar, em chamas, nos dá a pista do
nascimento do mito daquela greve de 1857, na qual teriam morrido 129 operárias num incêndio provocado
propositadamente pelos patrões.
E como se chegou a criar toda a história de 1857? Por que aquele ano? Por que nos EUA? A explicação é a combinação de
casualidades, sem plano diabólico pré-estabelecido. Assim como nascem todos os mitos.
A canadense Renée Côté pesquisou, durante dez anos, em todos os arquivos da Europa, EUA e Canadá e não encontrou
nenhuma traça da greve de 1857. Nem nos jornais da grande imprensa da época, nem em qualquer outra fonte de memórias
das lutas operárias.
Ela afirma e reafirma que essa greve nunca existiu. Ê um mito criado por causa da confusão com as greves de 1910; de
1911, nos EUA; e 1917, na Rússia.
Essa confusão se deu por motivos histórico-político-ideológicos e psicológicos que ficarão claros no fim do artigo.
Pouco a pouco, o mito dessa greve das 129 operárias queimadas vivas se firmou e apagou da memória histórica das
mulheres e dos homens outras datas reais de greves e congressos socialistas que determinaram o Dia das Mulheres, sua
data de comemoração e seu caráter político.
Já em 1970, o mito das mulheres queimadas vivas estava firmado. Rapidamente foi feita a síntese de uma greve que
nunca existiu, a de 1857, com as outras duas, de costureiras, que ocorreram em 1910 e 1911, em Nova Iorque.
Nesse ano de 1970, com centenas de milhares de mulheres americanas participando de enormes manifestações contra a
guerra do Vietnã e com um forte movimento feminista, em Baltimore, EUA, é publicado o boletim, Mulheres - Jornal da
Libertação. Neste já se reafirmava e se consolidava a versão do mito de 1857.
Dia Internacional da Mulher, em homenagem às 129 mulheres queimadas vivas
Mas essa confusão não foi aceita tranqüilamente, na França, por todas e todos. O boletim n° 0, de 8 de março de 1977,
História d'Elas, publicado em Paris, alerta para esta mistura de datas e diz que, em longas pesquisas, nada se
encontrou sobre a famosa greve de Nova Iorque, em 1857. Mas o alerta não teve eco. Dolores Farias, no seu artigo no
Brasil de Fato, n° 2, nos lembra que, em 1975, a ONU declarou a década de 75 a 85 como a década da mulher e
reconheceu o 8 de março como o seu dia. Logo após, em 1977, A Unesco reconhece oficialmente este dia como o Dia da
Mulher, em homenagem às 129 operárias queimadas vivas.
No ano de 1978, o prefeito de Nova Iorque, na resolução n° 14, de 24/1, reafirma o 8 de março como Dia Internacional
da Mulher, a ser comemorado oficialmente na cidade de Nova Iorque.
Na resolução, cita expressamente a greve das operárias de 1857, por aumento de salário e por 12 horas de trabalho
diário, e mistura esta greve fictícia com uma greve real que começou em 20/11/1909. O mito estava fixado, firmado e
consolidado. Agora era só repeti-lo.
Por que a cor lilás?
A partir de 1980, o mundo todo contará esta história acreditando ser verdadeira. Aparecerá até um pano de cor lilás,
que as mulheres estariam tecendo antes da greve. Daquela greve que não existiu. A mitologia nasce assim. Cada
contador acrescenta um pouquinho. 'Quem conta um conto aumenta um ponto", diz nosso ditado.
Por que não vermelho? Porque vermelhas eram as bandeiras das mulheres da Internacional. Vermelhas eram as bandeiras
de Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai, delegadas dos seus partidos, à Ia Conferência das Mulheres
Socialistas, em 1907; e da segunda, na Dinamarca, em 1910. Nesta Conferência foi decidido que as delegadas, nos seus
países, deveriam comemorar o Dia da Mulher Socialista.
A origem da cor lilás está na retomada do feminismo, nos anos 60. O vermelho estava muito ligado aos Partidos
Comunistas do Bloco Soviético que, na verdade, já tinham muito pouco de socialismo, ou de comunismo. Além disso,
historicamente, vários desses partidos, pouco apoio haviam dado às lutas específicas das mulheres.
A expressão "Libertação da Mulher" não era própria destes partidos. Neles, a luta da mulher era vista quase
só com o objetivo de integrá-la à luta de classe. A luta feminista, para muitos comunistas, só atrapalhava a luta
geral do proletariado. Tirava forças da luta principal.
Foi nesse clima que, nas décadas de 60 e 70, a luta feminista foi retomada, num processo de auto-organização das
mulheres. No movimento feminista havia uma forte crítica à prática da maioria dos partidos e sindicatos. Muitos
movimentos se organizaram de forma autônoma, lutando para garantir sua independência.
Assim, foi adotada a cor roxa, como uma nova síntese entre as cores azul e rosa. O vermelho ficou esquecido.
Na década de 70, as mulheres socialistas reafirmavam a origem socialista do 8 de Março, ao mesmo tempo em que
assumiam a cor roxa como cor específica da luta feminista.
Contemporâneos de Marx, Paul Lafargue e Laura Marx foram batalhadores da igualdade e da libertação feminina, em seus
vários escritos, sobretudo em seu livro mais conhecido Direito à Preguiça.
Clara Zetkin, desde 1890, logo após a fundação da Internacional Socialista, começou a falar, escrever e organizar a
luta das mulheres visando a integrá-las à luta socialista. Visando a que elas tomassem seu lugar na luta de classes,
na revolução socialista que estava próxima.
Fora da 2ª Internacional, a tradição anarquista de uma parte do movimento operário também exigia a igualdade de
homens e mulheres. A realidade, naquele começo do movimento da classe trabalhadora ainda era dura: partido e
sindicato eram coisas de homem. Mas, mesmo nesse ambiente desfavorável, grandes mulheres passaram a discutir com as
maiores lideranças da época e deixaram suas marcas em livros e artigos e na organização das forças revolucionárias.
Foi neste embate de idéias que um dos teóricos da Internacional, August escreveu seu livro
A mulher e o socialismo. E é nesse grande rio que desagua o célebre A nova mulher e a moral sexual, de Alexandra
Kollontai.
Nesse ambiente de lutas operárias e de discussões teóricas, no campo socialista, é que nasceu a luta pela
participação política e, pouco a pouco, pela libertação da mulher.
A partir do começo do século XX, essa batalha das socialistas se cruzou com a de um punhado de mulheres independentes
pertencentes às classes média e alta, que estavam em campanha pelo direito de voto. Essas mulheres, sobretudo nos
Estados Unidos, ao reivindicar o sufrágio para as mulheres, ficaram conhecidas como as sufragistas e suas relações
com as socialistas eram de conflito.
As mulheres socialistas criam o Dia da Mulher
Desde 1901, nos EUA, logo após a criação do Partido Socialista, surge a União Socialista das Mulheres, com a
finalidade de reivindicar o direito de voto feminino. Entre os anos 1904 e 1908, sempre nos Estados Unidos, nascem
vários clubes de mulheres, uns intimamente ligados ao Partido Socialista, outros mais autônomos, anarquistas ou não.
Todos exigiam o direito de voto para as mulheres.
Em 1908, a Federação dos Clubes de Mulheres Socialistas de Chigaco toma a iniciativa, autônoma, não ligada
oficialmente ao Partido Socialista, de chamar para um Dia da Mulher, num teatro da cidade. Era o domingo 3 de maio.
Os debates do dia tinham dois temas de pauta: 1 - A educação da classe trabalhadora, 2 - A mulher e o Partido
Socialista.
Nessa conferência, o palestrante, Ben Hanford repetiu uma das idéias-chaves de Engels no seu A origem da família da
propriedade e do Estado: As mais exploradas são as mães do nosso povo. Elas estão de mãos e pés amarrados pela
dependência econômica. São forçadas a vender-se no mercado do casamento, como suas irmãs prostitutas no mercado
público.
Mas não foi esse encontro independente, no teatro The Garrick, de Chicago, que foi reconhecido pelo Partido
Socialista como começo da comemoração do Dia da Mulher. A iniciativa desse dia tinha nascido fora da estrutura
oficial do Partido.
O primeiro dia da Mulher, nacional, assumido pelo Partido, foi no ano seguinte, em Nova Iorque, em 28 de fevereiro de
1909 .Em outras cidades do País, como Chicago, o dia foi celebrado em outras datas.
O objetivo desse dia, convocado pelo Comitê Nacional da Mulher do Partido Socialista americano, era obter o direito
de voto e abolir a escravidão sexual. O panfleto de convocação dizia: A realização da revolução das mulheres é um dos
meios mais eficazes para a revolução de toda a sociedade.
Desde o começo do século, nos EUA havia um importante movimento pelo voto feminino, fora da órbita dos socialistas. A
maioria das mulheres do Partido consideravam esse movimento como um movimento de "mulheres brancas e de classe
média".
Porém, dentro do Partido Socialista havia um constante vai-e-vem sobre esse tema. Por seu lado, as mulheres
anarquistas não viam nenhum sentido na luta pelo voto, nem das mulheres e nem dos homens. O meio para construir uma
nova sociedade, na visão anarquista, não seria certamente o voto, e sim a ação direta revolucionária.
Mas o ambiente americano favorecia esta reivindicação. Até o ano de 1909, somente em quatro estados era reconhecido o
direito ao voto feminino. A extensão do voto para toda mulher americana, só viria em 1920.
Na Europa, o movimento das mulheres socialistas, liderado por Clara Zetkin, também era cheio de zige-zagues.
No começo, dentro da Internacional, se levava uma guerra sistemática contra o voto feminino, visto como uma forma de
desviar as forças revolucionárias das mulheres e considerado como uma reivindicação burguesa. Era assim que eram
tachadas as sufragistas, pelos socialistas.
Essa visão européia será adotada pelo Partido Socialista americano, em meio a grandes debates e com vozes
discordantes.
Mas no meio de todas as contradições desse debate, em 1907, em Stuttgart, Alemanha, na 1ª Conferência Internacional
das Mulheres Socialistas, 58 delegadas de 14 países elaboraram uma proposição que comprometia os vários Partidos
Socialistas a entrar na luta pelo voto feminino. A resolução foi elaborada, na véspera, na casa de Clara Zetkin, por
ela e duas camaradas, suas hóspedes: Rosa Luxemburgo e a única russa da Conferência, Alexandra Kollontai.
E nesse clima de embates que, em 1910, Partido Socialista Americano organiza, pela segunda vez, o Dia da Mulher no
último domingo de fevereiro, em Nova Iorque. O objetivo do dia é declarado sem rodeios no convite: Arrolar as
mulheres no exército dos camaradas da revolução social.
Esta comemoração, de 1910, foi marcada por uma grande participação de operárias. Eram as costureiras da cidade que
haviam terminado uma longa greve pelo direito de ter o seu sindicato reconhecido. A greve durou de 22 de novembro de
1909 até 15 de fevereiro de 1910, quase na véspera do Dia da Mulher. Foi uma greve longa, dura, com fortes piquetes
reprimidos com violência pela polícia, que prendeu mais de 600 pessoas. Encerrada a greve, as costureiras
participaram ativamente da preparação e da realização do Dia da Mulher chamado pelo Partido Socialista.
Dois meses depois, em maio, no congresso do partido, realizado em Chicago, foi deliberado que o partido americano
enviaria delegados ao Congresso da Internacional, a ser realizado em agosto, com a tarefa, entre outras, de propor ao
plenário que o Dia da Mulher fosse assumido pela Internacional. Esse dia deveria tornar-se o Dia Internacional da
Mulher, a ser celebrado pelos socialistas, no último domingo de fevereiro de cada ano.
Em agosto desse ano, antes do Congresso da Internacional, se realizou em Copenhague, na Dinamarca, a 2ª Conferência
Internacional das Mulheres Socialistas. Foi então que as delegadas americanas levaram a proposta aprovada no
Congresso do seu partido. Assim, aceitando a proposta das delegadas dos Estados Unidos, Clara Zetkin e outras
camaradas propõem a realização anual do Dia Internacional da Mulher.
O dia ficou indefinido, a cargo de cada país comemorar o seu dia na melhor data. A resolução aprovada será publicada
logo em seguida, no jornal dirigido por Clara, a Igualdade, em 29 de agosto.
"As mulheres socialistas de todas as nações organizarão um Dia das Mulheres específico, cujo primeiro objetivo
será promover o direito de voto das mulheres. E preciso discutir esta proposta, ligando-a à questão mais ampla das
mulheres, numa perspectiva socialistas."
A partir dessa Conferência, as mulheres socialistas passarão a comemorar o Dia Internacional das Mulheres, sempre aos
domingos.
Nos primeiros três anos, após esta resolução, este dia, na maioria dos países, é marcado para o último domingo de
fevereiro.
O Dia da Mulher se fixa em 8 de Março
Na Europa, a primeira celebração do Dia Socialista das Mulheres aconteceu em 19 de março de 1911, por decisão da
Secretaria da Mulher Socialista, órgão da Internacional. Alexandra Kollontai, que propôs a data, diz que foi para
lembrar um levante de mulheres proletárias, na Prússia, em 19 de março de 1848.
Nesse dia, escreveu Kollontai, as mulheres conseguiram do rei da Prússia a promessa, depois não cumprida, de obter
direito de voto.
Nos EUA, a tradição de realizar o Dia da Mulher no último domingo de fevereiro se repetiu em 1911, 1912 e 1913. Em
1914, será comemorado em 19 de março, seguindo a indicação da Kollontai.
Nos vários países da Europa, após a decisão da 2ª Conferência, onde havia um partido socialista, se começou a
comemorar o Dia da Mulher.
Na Suécia, a primeira comemoração foi em 1º de março de 1911. O mesmo aconteceu na Itália.
Na França, no começo, o Dia da Mulher foi em 1914, comemorado dia 9 de março, próximo ao Dia da Mulher na Alemanha.
Na Rússia, sob da opressão do czar, o primeiro Dia da Mulher só foi comemorado em 3 de março de 1913. Em 1914 todas
as organizadoras do Dia da Mulher foram presas e com isso não houve comemoração.
Em plena Guerra Mundial, em 1917, na Rússia, as mulheres socialistas realizaram seu Dia da Mulher no dia 23 de
fevereiro, pelo calendário russo. No calendário ocidental, a data correspondia ao dia 8 de Março. Foi nesse dia que
explodiu a greve espontânea das tecelãs e costureiras de Petrogrado
Nesse dia, um grande número de mulheres operárias, na maioria tecelãs e costureiras, contrariando a decisão do
Partido, que achava que aquele não era o momento para qualquer greve, saíram às ruas em manifestação por pão e paz.
Declararam-se em greve. Essa manifestação foi o estopim do começo da primeira fase da Revolução Russa, conhecida
depois como a Revolução de Fevereiro
Em outubro o Partido Bolchevique lidera a grande Revolução Russa, nos dez dias que abalaram o mundo.
Essa greve foi documentada nos escritos de Trotsky e de Alexandra Kollontai, ambos membros do Comitê Central do
Partido Operário Socialdemocrata Russo e ambos, depois, proscritos pelo stalinismo vencedor. Kollontai escreve
"O dia das operárias, 8 de Março, foi uma data memorável na história. Nesse dia as mulheres russas levantaram a
tocha da revolução."
Mas o texto que melhor nos conta os fatos da greve das operárias da Petrogrado é um longo trecho de Leon Trotsky, no
primeiro volume de seu livro História da Revolução Russa. Vale a pena acompanhá-lo:
" O 23 de fevereiro era o Dia Nacional das Mulheres". Programava-se, nos círculos da socialdemocracia, de
mostrar o seu significado com os meios tradicionais: reuniões, discursos, boletins. Na véspera, ninguém teria
imaginado que este Dia das Mulheres pudesse ter inaugurado a revolução. Nenhuma organização planejava alguma greve
para aquele dia. Ainda por cima, uma das combativas organizações bolcheviques, o Comité dos tecelões de rayon,
formado essencialmente por operários, desaconselhava qualquer greve. O estado de espírito da massa, segundo Kaiurov,
um dos chefes operários deste setor, era muito tenso e cada greve ameaçava tornar-se um confronto aberto.
O Comitê julgava que o momento de começar hostilidades ainda não tinha chegado e que o Partido ainda não tinha forças
suficientes e, ao mesmo tempo, a união entre soldados e operários ainda era insuficiente. Por isso tinha decidido não
chamar para greve, mas para se preparar para a ação revolucionária, num futuro ainda não definido.
Esta era a linha de conduta preconizada pelo Comitê, na véspera do dia 23, e parecia que todos a tivessem acatado.
Mas, na manhã seguinte, contra todas as orientações, as operárias têxteis abandonaram o trabalho em várias fábricas e
enviaram delegadas aos metalúrgicos para pedir-lhes que apoiassem a greve.
Foi a contra-gosto, escreve Kaiurov, que os bolcheviques, seguidos pelos operários mencheviques e pelos socialistas
de esquerda se juntaram à marcha. Como se tratava de uma greve de massa, era necessário comprometer todo mundo para
sair às ruas e estar à frente do movimento. Esta foi a resolução proposta por Kaiurov e o Comitê de Vyborov se sentiu
forçado a aprová-la.
Pelos fatos, é então certo que a Revolução de Fevereiro foi iniciada por elementos de base que passaram por cima da
oposição das suas organizações revolucionárias, e que a iniciativa foi tomada espontaneamente por um contingente do
proletariado explorado e oprimido mais que todos os outros, as operárias têxteis. (...) O empurrão final veio das
enormes filas de espera em frente às padarias".
Em 1921, realizou-se em Moscou, na URSS, a Conferência das Mulheres Comunistas que adota o dia 8 de Março como data
unificada do Dia Internacional das Operárias. A partir dessa Conferência, a 3ª Internacional, recém-criada, espalhará
a data 8 de Março como data das comemorações da luta das mulheres.
Um dia esquecido e depois reinventado
Na Rússia comunista, após a vitória da Revolução de Outubro, nos primeiros anos do novo regime, o dia 8 de Março era
comemorado todo ano, como o Dia Internacional da Mulher Comunista.
O dia, pouco a pouco, perdeu seu interesse e o adjetivo comunista foi caindo à medida que o ímpeto revolucionário da
União Soviética começou a se arrefecer.
Nos últimos anos da década de 20 e, sobretudo, nos anos 30, o Dia Internacional da Mulher, seja comunista ou
socialista, se perderá na tormenta que se abateu sobre o mundo. A ascensão do nazismo na Alemanha, o triunfo do
stalinismo na URSS e o declínio da social-democracia na Europa e o vendaval da 2ª Guerra Mundial enterram as
manifestações do Dia das Mulheres. A humanidade só voltará a falar do Dia da Mulher, no final dos anos 60. Nesse
lapso de tempo, o marco do 8 de Março, data da greve das operárias de Petrogrado, de 1917, foi esquecido.
A data da vitória das revolucionárias rebeldes russas, que impôs a derrota do absolutismo do Czar e deslanchou a
Revolução Russa, não interessava aos comunistas do mundo todo. Estes, quase todos, viviam anestesiados pelos encantos
ou pelo terror stalinista.
Retornar a lembrança daquele 8 de Março das operárias revolucionárias de Petrogrado também não interessava à
Socialdemocracia, rejuvenescida após a destruição da guerra e em conflito aberto com o comunismo dos países do bloco
soviético.
8 de Março: uma data a celebrar
Menos que menos, a data do 8 de Março de 1917, na nascente URSS, interessava o bloco capitalista ocidental, inimigo
mortal da Rússia comunista.
Foi assim sem precisar de uma conspiração organizada por um suposto império do mal, que na Alemanha comunista, em
1966, a Federação das Mulheres Comunistas retornou o Dia da Mulher.
Vimos que o fizeram de forma confusa, misturando fatos com fantasias, inventando datas e detalhes.
E foi assim, sem nenhuma deliberação conspiratória, que o mito que acabava de ser criado, em 1966, no Leste Europeu,
começou a ser divulgado e foi depois enriquecido fartamente, nos EUA do final dos anos 60 e em todo o mundo
ocidental.
Depois disso, era só enriquecer o mito. O que foi feito, até sua cristalização em 75, com a ONU e logo depois com a
Unesco, em 1977.
Derrubar o mito de origem da data 8 de Março não implica desvalorizar o significado histórico que este adquiriu.
Muito ao contrário. Significa enriquecer a comemoração desse dia com a retomada de seu sentido original.
Significa voltar às origens, para que a cepa-mãe do ideal socialista possa alimentar, sem medos, e sem vergonha pelas
derrotas sofridas pelas revoluções perdidas no século XX, a árvore, ainda frágil, da luta pelos direitos e pela
libertação total das mulheres.
Significa integrar todos os novos e importantíssimos aspectos da luta da libertação da mulher, descobertos com a
evolução histórica da humanidade no século XX, com a retomada de suas raízes socialistas.
Integrar à clássica luta socialista/comunista do começo do século, as contribuições de Wilhem Reich, Simone de
Beauvoir, Herbert Marcuse, Samora Machel, Betty Friedann, Rose Marie Muraro e milhares de ativistas, militantes e
organizadoras da luta das mulheres, no mundo inteiro.
Sem medo da felicidade, sem medo do prazer. Sem medo de lutar por uma revolução, que deverá ser social, sexual, e
profundamente cultural.
Sem medo de levantar as bandeiras vermelhas da luta pela libertação da humanidade. A libertação de homens e mulheres.